ANTICABEÇA (II)

 

Lona podre, nacos de carne, torsos caindo; escuras mariposas (stukas) caindo; sirenes, uma canção.

Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.

Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.

Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.

Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).

Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital em Berlim.

Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.

Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.

Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.

(Como um livro) (de figuras) (metálicas ;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos ;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)

Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.

Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.

 

(Poema do livro Fera Bifronte, de Claudio Daniel. Bauru: Lumme Editor, 2009)

 

 

 

1 comment to ANTICABEÇA (II)

  • poema lindo demais. o mais bonito que já li seu, ou o que mais me tocou: todo bonito, sem o menor ruído, sem pressa, sem botar a inteligência na frente da emoção. parabéns.

Leave a Reply

 

 

 

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>