ZUNÁI - Revista de poesia & debates

 

 

ESCREVER UM APAGAMENTO

 

Ricardo Corona

 

 

O pequeno livro Fotos imaginarias con nieve de verdad, do poeta argentino Arturo Carrera, participa de uma coleção cujo nome é Apuntes de Lobotomia. A proposta editorial independente foi criada no México por Verónica Zamudio, Demian Marín e Sergio Ernesto Ríos e tem por finalidade oferecer o livro para o leitor como uma "experiência anômala", nas palavras dos editores.[1]

Arturo Carrera é um dos nove autores latino-americanos convidados a fazerem parte da coleção e, até o momento, o único que foi publicado. Em cada um destes volumes deverá se encontrar estampado atrás do livro-objeto uma parte do desenho da planta baixa de um hospital psiquiátrico. A coleção se concluirá quando o diagrama do hospital estiver completo.

Em Arturo Carrera, cujo livro inaugurou a coleção, trata-se de um objeto que se faz livro com um pequeno envelope colado atrás do pedaço da planta baixa. Dentro do envelope uma única folha com quatro dobras que desdobrada lhe dão trinta e duas páginas-papiro, nas quais vêm distribuídos vinte e oito fragmentos numerados e sugeridos como fotos imaginárias com neve de verdade. Neste livro, o poeta ao escrever a sua poesia aproximou-se do escrever com a luz que caracteriza o fazer do fotógrafo.

Pois bem, informações como estas, antes de servirem à utilidade editorial, desencadeiam mais que um procedimento estético, mas uma nuvem de sensações. A neve lá fora, neve de "verdade", insiste o adjetivo, insinua-se no livro enquanto objeto de linguagem. A sensação sugerida pela relação entre (ou fora-dentro) os adjetivos "imaginárias" e "verdade" para os substantivos "fotos" e "neve" do título, leva-nos a uma noção sem lembrança, memória mínima do desaparecimento.

Fotos imaginarias con nieve de verdad inaugura um espaço de relação que tangencia, até pela sua transversalidade, aA Momento de simetría. Contudo, a página daquele está distanciada da página-galáctica deste, pois, desta vez os poemas vêm grafados em preto sobre uma página branca, "neve", que os recebe feito instantâneos fotográficos. Lá fora a noite escura é atravessada pelo brilho da neve como um apagamento:

 

Quantas eram? Porque desapareceram

nossas fotos da grande nevada? A primeira? 

A última para mim? Já que abala a noite

sua maneira de sonhar? Qual era, dentre todos os copos,

nossa vida?

 

Não sei... Em seu segredo feliz

jogamos ainda.

 

(CARRERA, fragmento 2, s/p).

 

Não é por meio do registro técnico da escrita com a luz que, obviamente, a fotografia comparece, mas pela recordação murmurante:

 

Que não se apague ainda,

mesmo sem as fotos,

teu sorriso de ontem

debaixo da neve. E o sorriso do cãozinho

nesse brilho feliz que ignorava a noite.

(...)

 

(CARRERA, fragmento 1, s/p).

 

Este fazer a poesia no imaginário do leitor desencadeia a procura, talvez, do que Blanchot chamou de "silêncio puro, a fala em estado bruto" (1987, p. 32), referindo-se à experiência de Mallarmé quando este reconhece "um duplo estado da fala, bruto ou imediato aqui, essencial acolá" (p. 32).

Em Fotos imaginarias con nieve de verdad, poesia sobre página-luz, pois nada é desperdício [2] e se faz linguagem, o uso com funcionalidade dilatada e expandida dos adjetivos do título e o papel sutil do advérbio de alterar substantivos, trazem inquietação ao leitor, pela presença na linguagem do sentido que advém dessa fala em estado bruto, a linguagem do pensamento. Segundo Blanchot, a "fala bruta" que "se relaciona com a realidade das coisas" (p. 32) pode simplesmente ser representada, mas a poesia, segundo o filósofo francês, deveria então evocar essa "fala bruta", sem transformá-la em representação, mas numa "fala essencial" (p. 32). Ao invés de significá-la, apreendê-la por sua ausência, "transpô-la em seu quase desaparecimento vibratório" (p. 32). Por isso, ainda segundo Blanchot, estaríamos sempre tentados a reconhecer que a linguagem do pensamento "é, por excelência, a linguagem poética, e que o sentido, a noção pura, a ideia, devem tornar-se a preocupação do poeta, sendo isso somente o que nos liberta do peso das coisas, da informe plenitude natural" (p. 32).

Por este motivo a poesia designa tanto uma espécie de discurso, que a identifica como um gênero entre outros no meio das artes, mas que não cessa de desterritorilizar-se deste mesmo gênero. O poético faz-se, segundo Jean-Luc Nancy, quando acedemos de um modo ou de outro "a uma orla de sentido" (2005, p. 9). Isto tanto quer dizer que não é qualquer poesia uma medida do poético quanto nos permite pensar na generosidade do poético como lugar de acesso, antes mesmo que a própria poesia seja constituída como linguagem. Quer dizer, segundo Jean-Luc Nancy, "que apenas esse acesso define a poesia, e que ela só tem lugar a partir do momento em que ele tem lugar" (p. 9) e a própria poesia "pode perfeitamente encontrar-se onde não existe propriamente poesia" (p. 10).

Em Arturo Carrera, em que a sua poesia não cessa de tocar e insinuar a exterioridade, um lugar fenomenológico de relações incessantes, sugere uma questão importante: a do procedimento estético preenchido daquilo que Deleuze chama afectos e nas palavras de Raul Antelo, podem ser considerados "uma prótese de vida" (2008, p. 55). Segundo Antelo, é isso que melhor define a modernidade "enquanto organização de uma onda de embates contra as atitudes bem-pensantes e contra categorias tais como forma, conteúdo, imagem, obra ou inclusive arte" (p. 55).

Em Fotos imaginarias con nieve de verdad a questão puramente estética aparece como questão superada, se pensarmos no tempo que separa este livro de aA Momento de simetría, no qual já trazia uma relação de alteridade entremeada na linguagem: um lugar cosmológico para Alejandra Pizarnik[3] e em escrito con un nictógrafo, a presença marcante da perda da avó materna, "uma invocação do útero", conforme Nancy Fernández (2008, p. 26). Para Arturo Carrera a questão sempre foi mais do que o procedimento estético que se aproxima perigosamente do científico, do pensar do homem de ciência como animal rationale; ou mesmo do seu sentido de "experiência", radicalizado pelas vanguardas históricas: o de destruir/construir, posto por Walter Benjamin. [4] A lógica do procedimento estético de Arturo Carrera se afastaria do racionalismo da ciência somente com o sentido de invenção presente na sua página cosmológica. Um desvio praticado nos anos 1970 e 1980 por quase toda uma geração de artistas. Mas não é somente isso, pois o poeta, segundo Arturo Carrera, "faz seus próprios gestos fósseis, como o gato que esconde excrementos que não fez na frente dos seus congêneres que não tem e com terra que não há" (2008, p. 54). 

Podemos atribuir presença afetiva na linguagem uma alteridade e a esta o desenvolvimento da margem necessária, sem renúncia ou ruptura, mas de afastamento desta poética em relação ao construto puramente racional das vanguardas históricas. Neste sentido, aproxima-se do que Lévinas atribui à subjetividade na cultura: "nada é mais horrível do que o burburinho das significações culturais, abordado a partir do interno por uma subjetividade (enquanto sua expressão formal as simplifica e explica)" (1993, p.72).

Podemos afirmar, seguramente, que esta margem vem se expandindo na poética de Arturo Carrera desde os seus primeiros livros, escrito con un nictógrafo, aA Momento de simetría e Oro, justamente os que, segundo Joca Wolff, iniciam esta poesia. Assim como estes livros traziam na sua espacialização uma marca notável dos procedimentos adotados pela Poesia Concreta, por exemplo – sobretudo a espacialização adotada por Haroldo de Campos no poema-livro o Âmago do ômega (1955-1956), incorporado textualmente por Arturo Carrera em seu aA Momento de simetría –, havia na linguagem destes livros uma presença afetiva igualmente marcante. Precisamente, Arturo Carrera sempre apreendeu o movimento de ultrapassagem das categorias, a consciência material da linguagem, conquistas, entre outras, da vanguarda histórica, mas as delineou de modo a incluir nestes procedimentos as relações afetivas e suas finas ressonâncias.

Com Raúl Antelo, podemos retomar o que este define como uma questão "aporética", uma situação posta ao poeta moderno de "ter de conciliar, na obra, sua contemporaneidade, vale dizer, seu pertencimento aos atos de fala do presente e, ao mesmo tempo, sua procedência de remota origem, que a torna inspirada pelo passado da língua" (2008, p. 54). A poética de Arturo Carrera mantém a experiência na linguagem como um procedimento, mas chama para si os "assombros" ou "surpresas", o que a faz escapar do que, segundo Raúl Antelo, a partir do conceito "caráter destrutivo" posto por Walter Benjamin, as vanguardas históricas da modernidade estariam condicionadas:

 

Em vista dessa ambivalência inerente à agressão vanguardista, a poesia dos 1980, chame-se neobarroca, pós-moderna ou da sensibilidade, define-se a si mesma como uma reação contra as tendências explícitas e extremistas do terrorismo estético da modernidade. Sua busca de novas redomas ou esferas, sua atenção ao nímio e à dobra, sua coleção de decalques e inscrições são, de fato, produto de intensas cooperações de trabalho humano. Constituem o resultado imaterial e, no entanto, o mais real de todos, por tornar infraleve um esforço que só é levado a cabo por meio de ressonâncias (2008, p. 56).

 

Em Fotos imaginarias con nieve de verdad, podemos atribuir uma singularidade a essa experiência do afecto na linguagem. Uma ideia de construto, continuamente atualizada em Arturo Carrera e que nunca é demais reafirmar que esta advém nitidamente da sua relação com os conceitos lançados pelas vanguardas históricas, cuja genealogia remonta a Mallarmé. Mas podemos lançar mão de uma metáfora, rebaixando-a ao vazio para tentar minimizar o risco: um construto sem nome, uma casa sem endereço ou morada. Joca Wolff, em estudo recente, "A fotografia como poesia e a poesia como fotografia", [5] texto que relaciona poesia e fotografia, mas sem contrastá-las, lembra-nos que "a partir dos anos 1980, livre tanto do textualismo quanto do concretismo, o poeta segue usando seu nictógrafo" (2009, p. 261). Neste mesmo texto, Joca Wollf nos informa que os fragmentos deste livro vêm de uma experiência real: "sobre a nevasca que atingiu Buenos Aires no inverno de 2007" (p. 256) e atenta para a "trituração do sentido" (p. 257) na relação entre poesia e fotografia, ou seja, a fotografia como poesia no que sugere os fragmentos serem "imagens derretidas" (p. 257), bem apropriadas às "estruturas dissipativas" (p. 257), uma referência ao conceito dado por Reinaldo Laddaga sobre a poética de Arturo Carrera.

A agramatilidade (Derrida) que ressoa neste livro, por sua sutileza, aparece-nos já na informação de que os poemas vieram da vivência de uma nevasca que há muito não acontecia em Buenos Aires. Esta realidade se relaciona com esta poesia sem esta expô-la pela discursividade, como se fossem dados de fato. Pelo contrário, pois é na sua fragilidade que se faz riqueza, a mesma riqueza que escapa às pesquisas etnológicas e arqueológicas. Justamente por não constituir representação de um fato unânime, apesar de a nevasca ter sido vivenciada por todos da grande cidade. A realidade entra nesta poesia sem inflacioná-la, mas para ser transformada em poesia. Até aqui, podemos dizer, com Joca Wolff, que toda poesia contém esta origem, mas há modos diferenciados de tocá-la, de acessá-la. As fotografias imaginárias vieram de fotografias realmente produzidas, ou melhor, tentativas, pois – outro movimento deste dado da realidade – as fotos se perderam. Neste movimento é que a escrita poética passa a se relacionar intensamente com o lugar da escrita da luz, do escrever com a luz (a arte da fotografia) e começa a escrever um apagamento.

Por isso, parece-nos perturbador o adjetivo "verdad" no título deste livro. É a marca dissipativa ocasionada por essa dialética do desaparecer-não desaparecer. A pertinente leitura de "trituração do sentido", posta por Joca Wolff para este livro e sua relação com a fotografia, mencionando a Reinaldo Laddaga das "estruturas dissipativas", que é também aludida por Nancy Fernández (2008, p. 42), a partir de outro livro, Arturo e yo [6], mas em relação à pintura: "É ali onde a pintura antecipa os traços da sensação como franjas esfumadas" (p. 43).

Arturo Carrera, que traduziu Ives Bonnefoy[7], como este, desde seus primeiros livros, parece ter conduzido a sua poética a um lugar de opacidade, o mesmo que Yvez Bonnefoy "encontrou" em seu ensaio: O ato e o lugar da poesia ― o lugar do improvável, lugar sem provas. Nancy Fernández, em muitos sentidos, apresenta-nos algumas evidências neste comentário:

 

O real e a experiência de voluptuosidade. Mas o real também é a experiência poética manifestando-se concientemente do artifício (as leituras que a atravessam) e da letra (a técnica converte as lembranças em motivos cênicos). Assim, o Grilo, mais que o reflexo do êxtase pelo noturno campestre é a tradução da imagem mallarmeana: o fauno. Carrera dá forma a sua imagem de autor como quem joga e atua (em sentido teatral do termo); mas, por sua vez, é quem executa ou interpreta, ou melhor: quem toca o ritmo interno, a música vibrante e natural do corpo (2008, p. 179). 

 

O continuum desses afectos que preenchem esta poética, neste livro em especial porque se pode comemorar nele a presença e o murmúrio de uma poética livre de qualquer afirmação estética e muito menos viravolta conservadora diante da contemporaneidade. Os procedimentos que a vanguarda desde sempre colocara para a página, transformando-a em linguagem do poético, principalmente o rompimento com a linearidade, ainda estão vivos, mas a sua racionalidade – que também fez aqueles procedimentos ingressarem, ou melhor, tangenciarem aquilo que constitui tanto um triunfo quanto um problema: a inflação significante dos recursos midiáticos e mesmo o excesso virtual, na medida em que são meros suportes de todo tipo de discurso – em Arturo Carrera, estão abismados na tartamudez e na ressonância fina de sua linguagem.

Não obstante, esta é uma das diferenças fundamentais das leituras do poema-livro Um lance de dados jamais abolirá o acaso, de Mallarmé, feitas por Walter Benjamin e Maurice Blanchot. Com efeito, a página delineada por Mallarmé atravessou as vanguardas do mundo em diferentes épocas e nacionalidades, mas, talvez hoje tenha chegado o mais próximo daquilo que podemos dizer livro-livre.

Fotos imaginarias con nieve de verdad, mesmo que todo feito de palavras, alega nas suas hecceidades o pensamento que não se encerra nas palavras, mas que se pode pensá-las fazendo da experiência uma relação íntima com a materialidade, relação observada na pintura sumi-ê [8] :

 

A neve é outra coisa. Um material

que preparam para a arte da fotografia.

Uma pintura sumi-ê, que não poderá ser retocada

nem apagada a risco de derreter como na

calçada a água que cai com a neve.

 

No entanto, na memória, agora,

Nos é o suave abanador, o limpaparabrisas

de um instante que furtou a plenitude de

outros instantes. Esse tempo apenas que vivemos para

dizer: "somos eternos na leveza passageira!"

 

(CARRERA, fragmento 5, s/p).

 

 

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

 

ANTELO, Raul. A verdade do tempo reversível. In: Máscara âmbar. CARRERA, Arturo. Tradução: Ricardo Corona e Joca Wolff. Bauru: Lumme Editor, 2008.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Tradução: Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

CARRERA, Arturo. aA Momento de Simetria. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1ª. Edição, 1973.

_______________. aA Momento de Simetria. Tradução: Ricardo Corona e Joca Wolff. Curitiba: Editora Medusa, 2ª Edição, 2005.

_______________. escrito con un nictógrafo. Buenos Aires: Editora Sudamericana, 1ª Edição, 1972.

_______________. escrito con un nictógrafo. Buenos Aires: Editora Interzona, 2ª Edição, 2005.

_______________. Fotos imaginarias con nieve de verdad. México: Editorial Apuntes de Lobotomía, 2008.

FERNÁNDEZ, Nancy. Experiencia y escritura – sobre la poesía de Arturo Carrera. Argentina: Beatriz Viterbo Editora, 2008.

LÉVINAS, Emmanuel. Humanismo do outro homem. Tradução: Pergentino S. Pivatto (coordenador), Anísio Meinerz, Jussemar da Silva, Luiz Pedro Wagner, Magali Mendes de Menezes e Marcelo Luiz Pelizzoli. Petrópolis: Vozes, 2ª. Edição revista, 1993.

NANCY, Jean-Luc. Resistência da poesia. Tradução: Bruno Duarte Lisboa: Edições Vendaval, 2005.

WOLFF, Joca. A fotografia como poesia e a poesia como fotografia. Sobre Arthur Omar e Arturo Carrera. In: Crítica Cultural (UNISUL), Florianópolis, v. 4, n. 2, p. 255-262. Disponível em:

http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/critica/0402/00.htm

 

Notas

[1] Cf. http://apuntesdelobotomia.blogspot.com/

[2] Sentido de aproveitamento que não deve anular um dos conceitos colocado por Severo Sarduy: "O espaço do barroco é o da superabundância e do desperdício", lembrado por Ana Porrúa no prólogo "La cuenta de las sensaciones" Cf. p. 27. Op. Cit. 

[3] Ana Porrúa, no prólogo mencionado: La cuenta de las sensaciones: "... mas também, repito, a linguagem se arma graficamente como ela para dar conta de uma espécie de cosmologia de Pizarnik posta em relação com a mesma" Cf. PORRUA, Ana. Op. Cit., p. 26.

[4] Com Walter Benjamin entendemos que o "caráter destrutivo só conhece um lema: criar espaço; só uma atividade: despejar. Sua necessidade de ar fresco e espaço livre é mais forte que todo ódio". In: O caráter destruivo. Op. Cit., p. 235-237.

[5] Agradeço ao Joca Wolff o envio deste texto ainda na sua versão primeira, quando apresentado por ele no II Simpósio de Fotografia e Cultura Visual: Arquivo e Imagem (Universidade do Sul de Santa Catarina) em 23 de outubro de 2009. O artigo, publicado recentemente, segundo Wolff, aborda a 'trituração do sentido' operada no poema de Arturo Carrera. A questão posta por Wolff faz relação desta poesia com uma série de retratos de Arthur Omar (Poços de Caldas, Minas Gerais, 1948) chamada Antropologia da face gloriosa: "Trata-se em Carrera de imagens 'derretidas' correspondentes às 'estruturas dissipativas' que caracterizam sua poesia, segundo Reinaldo Laddaga, onde a linguagem é basculada em nome de uma sutil 'agramaticalidade', e, em Omar, da rostidade violentada em exuberantes imagens táteis, cuja 'fábula filosófica' encontramos em Deleuze-Guattari, Roland Barthes e Georges Didi-Huberman".

[6] Nancy Fernández cita o poema "El sentido triturado / por las disparatadas risas de los loros / el destino como una migración momentânea" (p. 42).

[7] La traducción de la Poesia (2002), textos, entrevistas e conferências sobre tradução, e Tarea de esperanza (2006), antologia poética.

[8] A pintura sumi-ê, por seus traços despojados que ultrapassam o figurativo, apesar de sua presença (galhos de bambu, folhas), em certo sentido, é fotografia imaginada, por trazer o ato da pintura como repetição sem observação, sugerindo o apagamento da referência no devir da memória, na sua condição mesma de palimpsesto.

 

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Ricardo Corona é mestre em Estudos Literários (UFPR) e atua nos seguintes campos: poesia contemporânea brasileira e hispano-americana, estudos de relação entre as áreas artísticas (performance, poesia sonora, artes visuais), tradução, linguagem e cultura. É autor dos livros ¿Ahn?(Madri, Poetas de Cabra, 2012), Curare (SP, Iluminuras, 2011 - Premio Petrobras), Amphibia (Portugal, Cosmorama, 2009), Corpo sutil (2005), Tortografia, com Eliana Borges (2003) e Cinemaginário (1999), publicados pela Editora Iluminuras. Na área de poesia sonora, gravou o CD Ladrão de fogo (2001, Medusa) e o livro-disco Sonorizador (Iluminuras, 2007). Organizou a antologia bilíngue (português-inglês) de poesia Outras praias / Other Shores (Iluminuras, 1997). Com Joca Wolff, traduziu o livro-dobrável aA Momento de simetria (Medusa, 2005) e a coletânea Máscara âmbar (Lumme, 2008), de Arturo Carrera (com posfácio de Raúl Antelo) e, esparsamente, publicou traduções de Henry Michaux, Gary Snyder e William Carlos Williams. Com Mario Cámara, Daniel Link, Reinaldo Laddaga, Romina Freschi, Nora Domínguez, entre outros estudiosos da literatura hispano-americana, participa do livro La poesía de Arturo Carrera - Antología de la obra y la crítica, organizado por Nancy Fernández e Juan Duchesne Winter (Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana/Universidade de Pittsburgh, 2010). Tem ensaios e poemas publicados nas revistas Poiésis (Brasil), Tsé-tsé (Argentina), Rattapallax (USA), Caligramme (França), Separata (México) e nos jornais Suplemento Literário de Minas Gerais (Brasil) e caderno Mais! (Folha de S. Paulo). Com Eliana Borges criou as revistas de poesia e arte Medusa (1998-2000) e Oroboro (2004-2006) e com Joana Corona o jornal Vagau (2011). Desde 1996, apresenta trabalhos performativos que envolvem música eletroacústica, artes visuais e poesia sonora, dos quais, destacam-se Carretel curare (2011) e as parcerias com Eliana Borges, Tsantsa (2011), Alfabeto móvel (2010), Nomos (2009), Tambaka (2008) e Jolifanto (2007).

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