ZUNÁI - Revista de poesia & debates

 

 

O POETA E DUAS FACAS

Uma entrevista com Armando Freitas Filho sobre a sua poesia, sempre renovada, no contexto da poesia brasileira hoje.

 


Foto: SÚrgio Liuzzi

 

 

Flávia Rocha

 

A produção poética de Armando Freitas Filho é das mais prolíficas – e sua capacidade de se reinventar, de se rever, de se autodefinir sob o ponto de vista do poeta que é hoje – é, talvez, o que o torna, consistentemente, ao longo dos anos, uma das vozes mais vibrantes da poesia brasileira.

 

A poesia de Armando Freitas Filho tem uma objetividade mágica (sim, isso mesmo, sem contradição). É como se cada poema constituísse uma peça, uma escultura, que se pudesse pegar com as mãos, de tão naturalmente estruturado: arestas polidas, substantivos encaixados, adjetivos moldados com a certa dose de sublimação. E o conjunto se sustenta, e se move, com delicadeza e realidade, mesmo em seus momentos mais desestabilizadores, mais ardentes. Ele escreve como quem leva numa mão a faca de cirurgião, na outra, a de caçador – como diz.

 

Nesta entrevista exclusiva à Zunái, o poeta fala das matizes da sua linguagem, da coesão entre o seu trabalho ao longo dos anos e da poesia brasileira hoje.

 

 

 

Zunái: Depois de publicar seus poemas reunidos e revistos em 2003, em Máquina de Escrever, como vê a adição de novos poemas à sua obra, com Lar e Raro Mar? Como seus novos poemas se conectam -- ou se distanciam -- dos anteriores?

 

Armando: Só vim a ter noção que minha poesia tinha a coesão possível depois que a reuni em Máquina de escrever, quarenta anos redondos depois da minha estreia, com Palavra, em 1963. Posso dizer, com simplicidade, que até me surpreendi com isso. Os livros que se seguiram, Raro mar (2006) e Lar, (2009), a meu ver, mantêm essa coesão: a conexão se estabelece na sensibilidade original, digamos assim, e o distanciamento se alonga, não só no tempo, mas no desenvolvimento dessa sensibilidade, desse conteúdo.

 

 

Zunái: Como é o seu processo de revisão — é importante para você revisar sua própria produção sob o ponto de vista do presente? O que o motiva a fazer esta auto-análise, a se reinventar?

 

Armando: Acho que a maioria dos escritores se revê, se revira, quanto tem oportunidade de republicar-se. Salvo engano, acredito que a nota redigida por mim para a quarta capa de Máquina de escrever - poesia reunida e revista, responde, satisfatoriamente, a sua pergunta. Aí vai ela, então: “A vida não começa aos quarenta. A vida de uma poesia, porém, pode ter esta pretensão e tentar a peripécia. Por acreditar nisto, reúno, pela primeira vez, meus livros, em edição revista, de Palavra (1963) até Fio terra. Realizei a tarefa inspirado em Dylan Thomas que, nos seus Collected  poems, afirma: ‘Este livro contém a maioria dos poemas que escrevi e todos que quero preservar, até o corrente ano. Em alguns deles fiz uma pequena revisão, mas se continuasse revendo tudo o que, agora, eu não gosto neste livro, eu ficaria tão ocupado que não teria tempo de escrever novos poemas’. E em Murilo Mendes, que na ‘Advertência’, das Poesias, esclarece: ‘Para esta edição revi inteiramente todos os textos, tendo também suprimido vários poemas que me parecem supérfluos ou repetidos. Procurei obter um texto mais apurado, de acordo com a minha concepção da arte literária. Não sou meu sobrevivente, e sim meu contemporâneo’. Ao organizar este volume – que se abre com Numeral / Nominal, uma coletânea inédita -, levei em conta os procedimentos diferentes destes poetas. Tive a sensação que trabalhava com duas facas: a de cirurgião e a de caçador. Só espero não as ter confundido, muitas vezes”.

 

 

Zunái: Como você descreve sua linguagem poética? O que se espera de uma poesia atual sob o ponto de vista da linguagem, da técnica, da sensibilidade contemporânea?

 

Armando: Entendo que a literatura, seja em prosa ou em verso, é só linguagem. Ela se desenvolve de acordo com as possibilidades do autor e a sua circunstância. Novamente, vou lançar mão de um texto que já foi publicado, entre outros lugares, no folheto do CD onde leio minha poesia, O escritor por ele mesmo, lançado pelo Instituto Moreira Salles em 2001. O título desse artigo é: Sou todo ouvidos, olho, nariz, boca e mão. Não conseguiria responder melhor sua pergunta, mesmo passados 10 anos do que aí vai, nesse trecho: (...) “Minha poesia, posso observar agora, possui uma constante: o vocabulário é trivial e, não raro, incorpora, estilizadamente, muitos elementos que não fazem parte do universo da escrita literária clássica, mas sim da fala e da publicidade: frases feitas, trocadilhos, duplos-sentidos, ditados, gírias, jargões, marcas registradas. A invasão brusca desses ready-mades orais, mais percussivos que melódicos, altera o tecido e a temperatura do discurso, muda sua marcha e regime ao introduzir síncopes, estranhamentos, desvios, abusando da violência e da velocidade. É, em suma, uma convocação ríspida de vozes, ou o encontro, a colisão e a montagem urgentes de dois ramais de uma só voz: um nobre, interior e menos usado, que lida com a literatura, a arte e a influência, consciente ou não, dos seus repertórios; o outro externo, acoplado a uma escuta, é vulgar e instintivo e capta, ora concentrado, ora distraído, inspirações, dicções do que está no ar, no formato dos media, na largada conversa cotidiana em geral, em seus improvisos coloquiais, às vezes de alta definição etc.

 

Sem ironia, a matéria mais rica pode estar no que conspira e transpira a partir deste et cetera que abarca o que não consigo pescar: o que não é carne nem peixe e, que mesmo assim, indefinível, inalcançável e enigmático, alimenta e amplia, clandestinamente, os significados do que se quer dizer.

 

Sob o aspecto visual, a sensação é a de que armo, num lugar sem mãos, um puzzle, onde as peças quase se encaixam: há sempre alguma coisa que falta ou sobra. O interstício e o excesso são a diferença imprecisa entre intenção e expressão. Procuro não contemporizar com a carência e a abundância, mas jamais consigo preencher ou desbastar de maneira correta. De vez em quando, essas necessidades vivem no paradoxo e se apresentam no mesmo plano – simultâneas – querendo existência plena e idêntica.

A poesia assim pensada não apresenta resultado cabal. As soluções são virtuais e se deixam ver e ouvir através de atmosferas distintas que misturam, aleatoriamente, cálculo e acaso”. (...)

 

Zunái: Para fazer um exercício poético: poderia listar cinco adjetivos que se relacionam, de alguma forma, com a sua poesia? E cinco substantivos?

 

1. Insone

2. Fechada

3. Ardente

4. Aguda

5. Final

 

 

1. Corpo

2. Casa

3. Amor

4. Dor

5. Morte

 

 

Zunái: Como você vê a produção poética brasileira hoje? É possível detectar correntes? É possível, de alguma forma, mapear a nova poesia brasileira?

 

Armando: Acredito que sim. É um dever da crítica, com a isenção possível, ou com o parti pris tolerável, realizar essa tarefa que é dela, por natureza. Um bom exemplo é o que Heloisa Buarque de Hollanda fez e faz. Com o tino costumeiro organizou, pioneiramente, uma antologia (do) que está on line: ENTER. Foi ela que, em 1976, publicou a célebre antologia, 26 poetas hoje e em 1998, Esses poetas. Essas duas antologias cobrem, com grande acerto e ousadia, a jovem poesia mais significativa que estava começando a ser realizada. Com ENTER, ela vem dando conta da primeira década do século XXI. Portanto, são quatro décadas da poesia brasileira que Helô estuda e escolhe, com alto discernimento. Seu trabalho é inestimável: sem ela, com toda a certeza, a poesia brasileira não teria a visibilidade panorâmica que hoje possuí.

 

 

Zunái: E quem seriam os novos “cânones” - pós anos 70. Quem são os poetas que delineiam a poesia produzida no Brasil no final do século (digamos, entre 1980 e 2000 – você pode fazer seu próprio recorte), que produziram uma obra relevante, sob o ponto de vista histórico-literário?

 

Armando: Responderei com cautela e sumariamente, essa pergunta. Afinal, a essa altura da vida, não preciso de amigos de ocasião e de inimigos para todo sempre, pois é isso que vou arranjar listando nomes, a torto e a direito. Posso dizer, portanto, com segurança, que os anos 1980 começam, em poesia, com um livro lançado em 1982: A teus pés de Ana Cristina Cesar. Poesia que durante as duas décadas seguintes só fez crescer, e continua, 2000 adentro, em trajetória ascendente.  Só não compreendo bem porque sua poesia é majoritariamente lida, estudada, representada e filmada por mulheres. Companheiros, se essa constatação for verdadeira, vocês não sabem o que estão perdendo. E para não dizerem que não falei dos novíssimos vou citar três que acompanhei desde as suas primeiras letras literárias, todos dentro da casa dos 20 anos: Alice Sant’Anna, com Dobradura, em 2008; Laura Liuzzi, com Calcanhar, em 2010; e Sylvio Fraga Neto, com Entre árvores, em 2011. Pensando bem, de nada me adiantará ter sido cauteloso e sumário. Serei para todo sempre omisso e avaro. Se não for coisa pior.

 

 

Zunái: Como, a seu ver, a poesia brasileira transita hoje no quadro internacional? Como dialoga com as fortes tradições poéticas de alguns países da America Latina, da Europa, ou com os Estados Unidos, por exemplo?

 

Armando: Infelizmente, o diálogo inexiste. Nos Estados Unidos, então chega a ser cômico. Outro dia, li uma longa entrevista do Philip Roth e o repórter brasileiro pergunta se ele conhece algum escritor brasileiro; Roth, responde com essa pérola: “que conhecia sim, mas não lembrava o nome do autor e do livro que ele tinha lido, embora tenha gostado muito” (sic). Na América Latina, a mesma coisa. Podemos até dialogar com autores de língua espanhola, como Borges. Muitos de nós o conhecemos bem; já até escrevemos, resenhas, dissertações e teses sobre ele. Quem, do outro lado, conhece bem, por exemplo, Carlos Drummond? Ao que eu saiba ninguém. E nem há estudos, pelo menos mencionáveis, frutos de uma recepção cuidadosa. Esse ano recusei uma residência em Berkeley, muito por causa disso. Talvez tenha sido um erro. Se falo que inexiste diálogo, recuso quando me convidam? Pois é, mas me pareceu penoso ficar falando de mim e de literatura brasileira, para uma curadora muito delicada e prestativa, mas que, calculo, não tinha lido minha poesia suficientemente. Sendo assim, imagine os alunos! O que fiz foi mandar meus livros autografados para ela. Quem sabe daqui a um século, alguém me descobre, como descobriram, um século depois, Machado de Assis? Em tempo: esse era o autor que o Philip Roth tinha lido e esquecido o nome e o título da obra. O que ele não sabe é que jamais escreverá romances com a excelência de D. Casmurro, Memórias póstumas de Brás Cubas, para só ficarmos com dois títulos. Por falar em Machado, em outubro de 2008, o New York Times o citou como “romancista argentino”.

 

 

Zunái: Quais são seus projetos atuais? No que está trabalhando?

 

Armando: No próximo ano, o cineasta Walter Carvalho terá aprontado o longa que fez sobre minha vida e obra, cujo título é de tirar o fôlego: Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície. Em 2013, completo 50 anos de poesia édita. Vou lançar, então, o livro que escrevo desde 2007. Ainda sem nome, será o maior em tamanho que escrevi até hoje. Vamos ver se ele terá a mesma acolhida de Lar, pois não deixa de ser uma espécie de suíte dele, pelo menos na primeira parte. É impossível não ficar ansioso com essa programação.

 

 

 

 

dezembro de 2011

 

 

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