TERUKO ODA
No ipê amarelo
nenhum indício do vento
que acaba de passar...
No caule sem ponta
a certeza de um novo tempo –
Broto de roseira.
Dente-de-leão –
Fugacíssima florada
lembrança que fica.
Fascínio de estrelas
na manhã ensolarada –
Magnólia florida.
Campa de meu pai –
Orquídea de primavera
no seu aniversário.
Teimoso, renasce
entre as fendas do jazigo –
Capim de primavera.
Ruas silenciosas –
Na manhã cheia de sono
flores de campânula.
Tronco da minerva –
Escora de lixo ensacado
auge da florada.
Sol entre as nuvens –
Na avenida permanece
o flamboyant florido.
Visito um amigo –
Na casa que é só ternura
lágrimas-de-cristo.
Ondulando ao sol
as rubras flores-de-cana –
Berçário do vento.
Palmeiras ao vento –
O frescor da chuva mansa
feita de ruídos.
O vento descansa
na copa que se abana –
chapéu-de-sol.
À luz do crepúsculo
tão crescida e tão florida –
Tulipa-africana.
O vaso de orquídea
de meu pai que já partiu –
Agora são flores.
Brevíssimo sonho –
As asas da falenopse
lufada de vento.
Um ar sonhador –
Seguindo o rumo do vento
a crista-de-galo.
Diminui o passo
o velhinho já tão lento –
Flores de suinã.
Canteiro de azaléias –
Incontáveis como as flores
os sonhos de outrora.
No jardim bem cuidado
solitário florescer –
Orquídea de inverno.
Vai alto o dia –
As lanternas não se apagam
na acácia mimosa.
Breve nostalgia –
Entre os prédios do horizonte
flores de ipê-roxo.
Apanhando a paina
a desconhecida me fala
da flor que já foi...
Tosca sepultura –
Folhas secas ocultando
um nome esquecido.
(Do livro Flores do asfalto)
Arara, arara...
Vê findar mais um dia
o pássaro preso.
Guirlandas ao sol –
Um beija-flor pesquisando
flores de cetim.
Um quê de inquietude
no balé das borboletas –
Tarde de outono.
Chega com o vento
um insistente chamado –
Cigarra de outono.
Um quê de leveza
no roçado ainda seco –
Canta o curió.
Horas quase mortas –
Fosforescências-do-mar
tão plenas de vida.
Gangorra de vento –
Um pequeno louva-a-deus
na haste do capim.
Imensa quietude –
Ao ranger da porteira
canto do nambu.
Um picar de olhos
seu único movimento –
Pardal de inverno.
Brevíssimo brilho –
No límpido espelho d’água
o salto da rã.
Mais um Ano Novo –
No casco da tartaruga
o tempo que não vejo.
Como versos livres,
ao toque dos tico-ticos,
as flores que caem.
(Do livro Flauta de vento)
*
Teruko Oda, poeta brasileira nascida em Pereira Barreto, filha de imigrantes japoneses, é uma das fundadoras do Grêmio de Haicai Caminho das Águas, de Santos, e presidente do Grêmio Haicai Ipê, de São Paulo. É autora de oito livros, entre eles, Janelas e tempo, incluído no PNLD/SP/2004 (Programa Nacional do Livro Didático). Participou de dezenas de antologias e publicações no Brasil e no exterior. |