AURELIANO COSTA
RI, QUEZA
são marés de pássaros na hecatombe
do ladrar nupcial dos galgos
avós das migas batem a calda num respigue
vento goleando as frinchas
o gado acena o focinho á passagem do homo erectus
seus cornos d'asas oscilam
enrola a águia, o tabaco e a mortalha
só a culatra perdura e acena ao grito
homem? ou mira?, em passadio "breve"
pelo chão mel de abutres que gravitam ?...
lençol equestre na timidez da pupila lavra em leque
a farsa na reentrância da terra – virgem
e esmaga prosélito a ânsia noctívaga dum duelo
franco - ibérico na sucata do império?
a cama – doce se estende neste estival de sopros de cana
enquanto o pente desliza em serpente o crânio choco
que tem este gás pancreático, aftoso e dissonante
que não tenha já estado mas fossas nasais de qualquer povo?
hostes salemas, luvas movediças
lesmas, baratas, canas da índia e borboletas
que rico !
AMÉN-SE
Achatada
a plaquete branqueja ao luar
e arfa um sentido vespertino na fala
Mais púdica levanta-se da garrafeira e tímida ladra
Tem um fino regulador do olhar
e um caroço que nos deixa baloiçar na rede "pum, pum"
o brasa deixa-lhe uma marca na cintura como dente laço
susceptível de um tacto alfabético ao dolo
prisca ácida em língua fálica baleia a tona áspera desta madrugada
onde poiso o bico na morna água de teu corpo ...
onde estás Benta de Boticas ? Em ourique ouço a tua voz e o vento oura nas janelas desta casa velha como Tu, minha única crença é babar-me ! e olhar-Te gulosa num estúdio de bocas e à poça ir buscar a água doce que incendeia Teu crâneo.
Deixa-me ficar-te por musa galante e inebriada mais que a ideia que falece em vez da dança!,
urino um doce go te ja men to e de mão em concha
be bo - o feliz junto ao rosto
não é o prurido do contraceptivo a encomenda
mas o lastro belo da língua acetinada e feliz
na quadra de um olhar gasto e luminoso
a jusante da luz ….
AMÉN - SE !
Este é o sagrado cólon de um diospiro maior
que o lato segredo de todo o embrulho
vespa d’aço encandeia a safra mineira
de um esgaço
matutina e calorenta a náusea obsta ao conhecimento
da púrpura nos seios betuminosos das moças
e escuta o sopro pancreático das anémonas no solo
sátiro, insisto, num bloquear a noite de aguarelas subtis e párias
onde se encontram os amantes das tempestades e um líquido esboroa
a trepadeira antiga
da porta avizinho os rostos e prancho o canivete entre os dedos
depois vem a fruta leve e misericordiosa para os papagaios
“papa, papá” e alisa o turbante de caxemira num lance térreo aos demais
*
Aureliano Costa nasceu em Argivai, Póvoa de Varzim (Portugal), em 1956.
Poeta e diseur, licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Obras: Poesia Solar, Ed. Orpheu. Lisboa/92; Na Raiz do Tempo, Ed. Tema. Dep. Literário da Soc. Guilherme Cossoul. Lisboa/2000; Pitões das Júnias,- com ilustrações de Anxo Pastor- Ed. Fluviais/Lisboa & Galeria Arcana/Pontevedra/2002; Amónio, Ed. Do Buraco. Dep. Literário da Soc. Guilherme Cossoul. Lisboa/2003, 2ª edição (bilingue, castelhano-português) tradução de Sílvia Zaias, ed. Amalaia, Léon 2006; Na Terra de Genoveva, Ed. do Buraco. Dep. Lit. da Soc. Guilherme Cossoul. Lisboa/05.
Antologias: A Poesia é Tudo, Ed. Francisco Guedes/2004; Na Liberdade - 30 anos- 25 Abril, Garça Editores, Lda./Peso da Régua/2004; Vento – Sombra de Vozes / Viento - Sombra de Vocês, Ant. Ibérica de Poesia/04; Son de Poesia/ Ed. Fluviais, Lisboa & Livraria Couceiro, Galiza 2005; Os Dias da Criação/ Ed.Leader+/Adrat, Trás –os-Montes/06; Canto de Mar/poesia sobre a Nazaré, Ed.Bibl.CM da Nazaré/05; Cântico em Honra de Miguel Torga, Coimbra Editora/2007.Dádiva,Ed.C.M.Santo Tirso/08.
Discografia: Na Voz do Regresso, Ed. Comemorativa do Centenário de Nascimento de José Régio; Ed. Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, com o Maestro António Victorino D’Almeida/2001; Confluência CD – Áudio, Ed. Asa/2002; Torga na Portagem, Ed. comemorativa do centenário de nascimento do poeta/Coimbra, com António Victorino D’Almeida.
Colaboração / narração em “Miguel Cervantes & las Músicas del Quixote”, com Hespérion XXI, sob a direcção de Jordi Savall /2006; colaboração/diseur em Recital “Música e Poesia”, com António Saiote(clarinete) e Iwona Saiote (flauta);
Participação/diseur nos filmes “Olhar Coimbra” e “Olhar o mar”, Produções da Didacthèque de Bayone, com apoio da Comunidade Europeia (programa língua).1993/1995.
Cinema: actor em “Netto e o domador de cavalos”, de Tabajara Ruas, Rio Grande do Sul- Brasil/2008
Televisão: colaboração nas séries “Pianíssimo”, 2006, e “Sons do Tempo”,2008-RTP1, de António Victorino D’Almeida. |