ZUNÁI - Revista de poesia & debates

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CONTADOR BORGES

 

NERVURAS
(fragmentos)


O rosto, as faces, o brilho opaco,
o riso enfeixando lenhas
de sua fogueira
rosada; os olhos,
estrelas queimando o derradeiro
fôlego, o pacto
de gloriosa cera
corpórea, anímica
horrorizando o tempo
e seus intentos, um tira-gosto
da eternidade, um tira-teimas
de moléculas
que a vida não espera
no calor da festa
no melhor do êxtase,
quando a carne esponjosa e secreta
se rasga
e saltam dentro vermelhos,
violetas intermináveis,
a voz inteira do crepúsculo que enfim se mostra
o causador de tudo
em criminosa espuma,
tudo dentro de um mesmo apuro,
de um mesmo ensejo
de provocar contido
e alterar o feito
de metáfora embalando a fala
em seu cueiro
com a mão mais clara
a tirar proveito
para redimir o escuro;
e se tanto olhar escapa,
o rosto, a tela, traz à tona
seu mar interno
seus mártires
de pálpebras abertas, insones,
os lábios em forma de escombros
que soprando as águas
se arrastam
como as vozes se arrastam
em centelhas e folhas,
como a morte domada a fórceps
e seu tumulto,
um maremoto na boca
amarelando os olhos,
algas, algas
sonoridades roucas,
conchas de vômitos homéricos, intermitentes
palavras, dispersas, escassas.


* * *

Poros pensantes, luz difusa
germe de estrelas
revoltas
na pele tecida
por dedos
e olhos de outra
mônada.
A luz é tudo para a pele,
núcleo celeste
do impulso,
a luz é sempre
um sinal de luto
na penumbra
da pálpebra,
onde a carne reina:
cachos de seios, tornozelos,
coxas aéreas,
furor de cabelos,
a cosmovisão do corpo
e seus prodígios
onde a morte (a pequena)
é o gozo
do movimento:
uma pausa
para o recomeço.


* * *

Carne e unha do segredo
a pele, um labor
fluente,
réstia de ossos
clarividentes: o extremo é quando
a morte em peso
vibra como vibra o gesto
posto à prova, a toda
prova,
um sopro escuro
no coração da fala,
um beijo sonoro como foice,
elipse,
quando rola o olho
no avesso do sonho
e floresce a pele nuamente
e sua cara-metade, o osso
erguendo a carne em toldo:
a carne
que se descola e voa.


* * *

Pele sobre pele, atol
de ossos,
os dedos a toque de caixa
torácica,
tambor erótico: quando soa
o êxtase
em pele de tigre
(jamais cordeiro)
em carne de sintagma
aberta, zebrada
no linho entre listras
uma fala (quem ouve?)
sob medida
uma sensação diáfana
de falso obelisco, o sentido
agudo a furar o céu
da metáfora
estrela obstinada
que passa
sem deixar vestígio
na caixa postal do espaço
mas que marca o território
cegamente
como um gato intergalático
por amor ao novelo.


* * *

No deserto da pele, nos olhos quase pássaros, sondas
aéreas varrem de extremo a extremo:
pente de ecos sobre o silêncio;
e de repente a concha, o som perplexo
da boca de Homero: o sem-olho, só dentes,
esmerilha o destino sob sol e chuva
para arrancar Ulisses dos braços
carcereiros da deusa. Assim faz a carne
com os sentidos, faz a vida com a pele mortífera
até a língua exprimir seus prodígios,
até a fome inventar um antídoto, sabores
íntimos na extremidade do tato, as regiões da língua,
os cimos do palato, este palácio
onde os sentidos fulguram, onde as palavras destoam,
ouro soante, pérolas afoitas: primos ricos da redundância.

 

*



Contador Borges nasceu em São Paulo (SP), em 1954. É autor do livro de poemas Angelolatria (1997). Publicou também traduções de René Char e do Marquês de Sade.

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