ZUNÁI - Revista de poesia & debates

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FERNANDO PAIX├O

 

 

 

 

UMA FOTOGRAFIA E UMA PINTURA

 

                                              

RAINER MARIA RILKE

 

            Na foto, a figura sentada à escrivaninha sob o testemunho de três altos arcos. O porte magro e tímido daquele homem indeciso com os pés contrasta com a perfeição que a colunas e os arcos proporcionam. Captado num flagrante, o poeta metafísico olha para o chão, quase ao rés da soleira, e fixa ali uma atenção mínima, sabendo que as curvas governam o plano alto.

            Por associação, vemos o espaldar amplo e aristocrático da cadeira sobrepor-se à  mesa simples, onde os papéis se espalham. Talvez confira a precisão de uma palavra, uma idéia. À espreita de um verso, sabe ele que os arcos acima respiram junto das linhas humildes do assoalho. Palavras trafegam no espaço, dão-se como sugestões flutuantes ao correr do momento.

 

 

 

MAXIMILIANO, 1867

 

            Uma cena de fuzilamento, mesmo sendo a execução de um imperador, guarda uma atmosfera prosaica quanto registrada pelas mãos do pintor. Há a curiosa distribuição espacial de uma área de tensão, com predominância para a tonalidade da terra. Os pontos mais claros pulsam não por acaso atrás das orelhas dos rostos perfilados. Há uma cena forte por explodir: aguarda-se.

            No centro da atenção, gravitam os cabelos dos soldados e as armas apontadas, sem que se vejam as linhas das faces. Os torsos fardados e definidos fazem ângulo com os fuzis, que apontam para fora do quadro, miram o ponto imaginário a partir do qual se justifica a trama dos volumes e das cores.

            Propositalmente o pintor escolheu um ponto de vista recuado, deixando a cena crua, sem sinal de majestade, nenhuma nitidez da expressão dos soldados. Agrava-se apenas uma espera sobre cores pardas circundadas por uma claridade tímida e sem lugar. O imperador vai morrer. O tiro está próximo, e o quadro de Manet recende a pólvora.

 

 

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Fernando Paixão nasceu em Portugal e vive em São Paulo desde os seis anos de idade. Sua produção poética iniciou-se com Fogo dos rios (Brasiliense, 1989), seguido de 25 Azulejos (Iluminuras, 1994) e Poeira (Editora 34, 2001); este último ganhou o Prêmio APCA e apresenta fortes vínculos com a sua origem portuguesa. Publicou ainda Narciso em sacrifício (Ateliê, 2003), um estudo sobre o poeta Mário de Sá-Carneiro, e também poemas para crianças. Profissionalmente, atua na área editorial há mais de três décadas e escreve artigos sobre literatura e cultura brasileira.

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