ZUNÁI - Revista de poesia & debates

[ retornar - outros textos - home ]

 

 

 KARINNA GULIAS

 

 

PARTE I

 

O QUE NÃO É

Uma mãe feita para criar bois [espelhados],
administrar a base da terra para a permanência.
Fez um filho com duas estrelas,
filhas da massa negra do espaço.

Uma mãe feita para criar bois [gigantes]
                         e aumentar a sua sombra.

Acendeu velas e dançou
para o dia em que seria dona de cria.
A partir desse dia, acordou com os olhos grandes;
talvez crescidos em algum ponto do inferno durante a noite,
                                                          dentre cemitérios de sóis.

Seu nome mudou-se para outra casa;
pertence a outro número. A outro ofício.

A viagem:

- De todos os rios por que passou,
ficou-lhes terços de seu cabelo, agora branco,
como espuma de mar.

À noite os rios a visitavam e derramavam
transparências em seu peito. De seu ventre, então,
nasceram cabelos de estrelas e espumas de mar. -

Mais uma vez seu nome foi mudado de casa,
                                                                         até a vontade se retrair.
Seus cabelos caíram e o nome passou a ser:
poca sombra
e por fim
Nasceu um menino.

 

 

ÊXODO

Novas sementes e flores cresceram;
o céu não era mais o velho, de lá nasciam pássaros
revelados a apenas um olho.
Maria da Graça
antiga cidadela de grumo, aquática,
aterrada por trens. 

 

***


De um lado a outro, em Maria da Graça,
as pessoas atravessavam trens parados - homens ajudavam moças
e crianças [todos sem nomes.
Os trens brotavam da areia e propunham trilhos à terra.

 

***

 

Poca sombra, nascida dentre nomes -

Era apelidada a mãe. Expulsa para a terra do comboio.

 

***

 

MARIA DA GRAÇA

A encosta repetia os nomes perdidos;
muros se erguem na pedra do sapo,
o balbucio de palavras eram carregadas de vento
                                   Caíam duras como imagem
                                   no chão. E delas brotavam mais e mais trens.

Ferradura logística;
cargas de banha e sebo de cavalos, ou corpos.
                                   Toda a banha se transforma em ferro e giz.

 

***

 

E as mães foram feitas para serem outra.

 

***

 

 

SISTEMA DE AÇO

Partitura de aço, não ossos.

Para cada vida, um aparelho de imortalidade:
o ofício.

 

***

 

Eu comeria deus todo dia,
no olho das plantas; as plantas.

Poca Sombra não conhece a folha verde:
esquece que um dragão se cria na pilha de folhas secas:
avermelhando. 

Ela sempre esquece novos pensamentos.

 

***

 

[O pássaro criou fios de ovos para chocar.
Não nasceu ovo; mas deu à Lua um deus]
- O pássaro visto por olhos de um. Secou.

Poca Sombra não mais se sacrifica.

Poca Sombra chora
e a noite limpa seus olhos com desejos;
agora volta a ter destino. Já fadada a viver sem nome,
                                                     
  na terra dos sem nome.

- Abandona Poca Sombra e cristaliza-se mãe.

 

***

 

Ninguém era de saber dela, nem antes, nem agora.
Todo seu movimento de eregir-se ficou para deus,
que passou a dever-lhe um nome. 

Sem ter seu nome de volta,
comeu os dentes de leite de seu filho,
                                                        
e virou Filho.

 

***

 

PARTE II

 

AZEITES

As olarias sobrevivem nas cidades duras -
Olarias imperiais: resguardam os pontos cegos do rio,
templos sacros da terra.

 

***

 

De dentro do aquário, Filho respira óleo.
Viu, ainda pouco, um metrô
e não entende o porquê de seu passar.
"Minha terra da Graça não tem nome"

 

***

 

FEIRA

Os grandes gizes brancos
expostos em montes
no estaleiro.

Estancar fontes de mar
todos os dias
mantêm a terra seca e destinada a trilhos.

Filho costuma dizer que
cada giz é feito de corpos
referenciais a homens ocos,
desolados.

Certo número de alqueires de sal, nas salinas.

 

***
 

As plantas adormecem depois
que fecham-lhe os olhos.

 

***

 

Lacradas em potes de vidro,
lâminas de olhos. A noite dos sem nome
parece
          
aquele fundo que recebe um líquido.

Todos seus viventes se fundem às banhas de ferro.
Comem ouvidos dos trens mudos.
Carregam o peso da carga que atravessa sua terra.

São saciadores de anemia suas minhocas,
que comem azeitonas divinas.

 

***


A língua falada em Graça é
olho.
Linguagem da noite,
seu ponto de existência é a Lua.

A língua tanto fala quanto guarda o Sol.

 

 *

 

Karinna Gulias, poeta carioca, publicou poemas e traduções na Revista Confraria. Edita o blog http://beggarsbodyart.blogspot.com/.

*

 

retornar <<<

[ ZUNÁI- 2003 - 2008 ]