ZUNÁI - Revista de poesia & debates

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 EDMOND JAB»S



EDMOND JAB»S

 

 

TOUJOURS CETTE IMAGE

 

Toujours cette image de la main et du front,

de l'écrit rendu à la pensée.

 

Tel l'oiseau dans le nid, ma tête est dans ma main.

L'arbre resterait à célébrer, si le désert n'était partout.

 

Immortels pour la mort. Le sable est notre part insensée d'héritage.

Puisse cette main où l'esprit s'est blotti, être pleine de semences.

Demain est un autre terme.

 

Saviez-vous que nos ongles autrefois furent des larmes?

Nous grattons les murs avec nos pleurs durcis comme nos cours-enfants.

 

Il ne peut y avoir de sauvetage

quand le sang a noyé le monde. Nous ne disposons que de nos bras pour rejoindre, à la nage, la mort

 

(Au-delà des mers, au-dessus des crêtes, minuscule planète non identifiée, mains urnes, rondes mains comblées, échappées à la pesanteur.)

 

Lorsque la mémoire nous sera rendue, l'amour connaîtra-t-il enfin son âge?

 

Bonheur d'un vieux secret partagé.

A l'univers s'accroche encore l'espérance du premier vocable; à la main, la page froissée.

 

Il n'y a de temps que pour l'éveil

 

 

SEMPRE ESTA IMAGEM

 

Sempre esta imagem da mão e da fronte

da escrita rendida ao pensamento.

 

Como o pássaro no ninho, minha cabeça está em minha mão.

A árvore continuaria a celebrar, se o deserto não estivesse em toda parte.

 

Imortais para a morte. A areia é nossa insensata parte da herança.

Pudera esta mão onde o espírito está pleno de sementes.

Amanhã é um outro termo.

 

Sabia que nossas unhas outrora foram lágrimas?

Rasgamos os muros com nosso pranto endurecido como nossos corações-crianças.

 

E não pode haver resgate

Quando o sangue tem afogado o mundo. Só dispomos de nossos braços para alcançar, a nado, a morte.

 

(Além dos mares, acima das cristas, minúsculos

planetas não identificados, mãos unidas, redondas mãos saciadas, soltas à gravidade)

 

Quando a memória nos for devolvida, conhecerá finalmente o amor sua idade?

 

Felicidade de um antigo segredo partilhado.

Ao universo se agarra a esperança do primeiro

Vocábulo, à mão, a página amassada.

 

Só há tempo para o despertar.

 

 

Tradução Priscila Manhães

 

 



 

*

Edmond Jabès (1912-1991), poeta e escritor nascido no Cairo, de expressão francesa. Em 1956, com a crise do Canal de Suez, o escritor, de origem judaica, imigra para a França, onde faz amizade com poetas do grupo surrealista. Obtém a cidadania francesa em 1967, mesmo ano em que participa da Exposição Mundial de Montreal, ao lado de Sartre, Camus e Lévi-Strauss. Recebe o Prix des Critiques em 1972 e uma comissão como oficial na Legião de Honra em 1986. Em 1987, recebeu da Guarda Nacional da França o Prêmio de Poesia (Grand Prix National de la Poésie). Jabès faleceu aos 78 anos e está sepultado no cemitério de Père Lachaise.

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